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29/08/2018

Como será o clube do futuro?

Inteligência artificial, automação, inovação, games… esses temas já estão no horizonte dos clubes!

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A história centenária dos clubes tem comprovado a capacidade das agremiações de incorporar as mudanças e inovações surgidas em diferentes épocas para responder às demandas dos associados. As rápidas transformações do mundo contemporâneo, no entanto, estão acelerando esse processo, e tudo indica que o que valeu até agora prescreverá já na próxima década. Com isso, os clubes enfrentam o desafio de encontrar novas formas de se adaptar ao futuro em termos tecnológicos, e também gerenciais.

No futuro próximo as novas tecnologias aplicadas aos equipamentos permitirão aos clubes assimilar dados vindos de todos os dispositivos rastreáveis conectados aos processos de gestão de todas as suas atividades, desde o setor financeiro até o de manutenção ou de esportes. Todo esse acervo de informações possibilitará aos clubes uma visão em tempo real dos interesses, preferências, satisfações e expectativas dos associados.

Miguel Delonei Berris, diretor da Delsoft Sistemas, empresa que oferece modernas soluções em softwares de gestão, diz que as novas tecnologias já permitem maior flexibilidade e agilidade aos processos administrativos dos clubes. “Os gestores podem controlar as informações dos associados, suas atividades e todo o histórico de relacionamento, para organizar e promover ações buscando fidelização e assiduidade”, afirma.

As aplicações abrangem desde controle e segurança das portarias, com integração de equipamentos de identificação por leituras biométricas digitais, faciais e pela íris, até o gerenciamento de reservas, instalações e equipamentos para eventos. Mas as novas ferramentas contemplam também a gestão dos títulos de sócio, com informações sobre titularidade, capitalização, transferências, licenças, histórico de ocorrências e situação financeira, além do controle sobre reuniões, com registro de atas, e até a organização de eleições.

“Essas são soluções às quais os clubes já podem ter acesso. No futuro próximo as possibilidades serão ainda maiores”, afirma o diretor da Delsoft, que projeta a adoção da inteligência artificial, da internet das coisas (IoT) e da wearable tecnology (tecnologia de vestir). “Imagine o clube poder oferecer uma refeição mais saudável para um associado cujo relógio indica que seu batimento cardíaco está alterado, ou sugerir aulas de tênis ao sócio cuja performance está baixando: as possibilidades são infinitas”, complementa.

As novas ferramentas influenciarão também a vida dos dirigentes, cada vez mais. “A tecnologia possibilitará o acesso às informações do clube através da internet, com smartphones ou outros dispositivos, deixando o gestor conectado 100% do tempo, sem precisar estar fisicamente na agremiação”, diz Berris. “A legislação brasileira responsabiliza as diretorias pelos atos das entidades e, nesse cenário, estar presente em todas as decisões tomadas no clube, mesmo a distância, será essencial para o gestor”, ressalta.

 

Inovação e e-sports

A vantagem competitiva dos clubes em um futuro próximo estará relacionada também à sua capacidade de inovar. A previsão é que os clubes que não demonstrarem essa disposição perderão destaque. “Não se trata de destruir os alicerces que fizeram com que os clubes chegassem aos dias atuais, mas de buscar equilíbrio entre o modelo tradicional e a necessidade de inovação”, afirma Luis Antonio Brum Silveira, consultor de empresas na área de gestão estratégica.

“As lições para os clubes começam pela compreensão de que a gestão da inovação é uma ferramenta extremamente útil para dar agilidade à oferta de serviços novos ou remodelados que se adaptem às necessidades dos associados”, diz o consultor.

Segundo Brum Silveira, o clube poderá focar na inovação com base nos feedbacks recebidos e entregar o que os associados necessitam. “Nada mais importante que empregar métodos e processos ágeis, considerando que os associados vivem num cenário acostumado à instantaneidade das novas tecnologias, no qual a morosidade na entrega de soluções é vista com estranheza”, afirma.

Brum Silveira defende que o sucesso chegará mais facilmente para quem conseguir aprender com a cultura das startups, “o que significa renunciar a alguns conceitos tradicionais e utilizar processos como prototipação, MVP – Minimun Viable Product, e adotar novas maneiras de organizar as equipes em pequenos times responsáveis pela melhoria de um aspecto específico do serviço entregue aos associados”, diz.

Mas o consultor deixa claro que a dosagem dessa absorção dependerá do contexto do clube, da maturidade da sua gestão e da sua adaptabilidade à inovação. “Embora todos os clubes possam se beneficiar da cultura das startups, a medida exata dependerá das condições específicas de cada um”, alerta.

Essa também é a visão do advogado Rodrigo Monteiro de Castro, que tem entre as suas especialidades o direito esportivo e a governança corporativa. “A governança de um clube deve ser modulada em função da sua realidade. Não há um modelo único, padronizado, que se aplique a qualquer situação”, diz o advogado. Nesses casos, ele ressalta a importância da introdução de técnicas de controle das atividades administrativas e financeiras para oferecer a transparência que o mundo contemporâneo exige, mas de acordo com as características da agremiação.

“Cada clube tem o seu modelo de governança. As agremiações que se dedicam a atividades de alto rendimento, por exemplo, precisam manter suas peculiaridades associativas e decidir se faz sentido atuar como uma empresa econômica, que se sujeitaria a uma governança de mercado, com conselho de administração, diretoria profissional, conselho fiscal e técnicas efetivas de controle e informação”, lembra o advogado.

Segundo Monteiro de Castro, “se a resposta for negativa, o caminho adequado passaria pela versão dos ativos para uma empresa controlada inicialmente pelo clube, e dessa forma conviveriam duas entidades: o clube (controlador) e a empresa esportiva (controlada)”.

Monteiro de Castro também destaca que “os jovens contemporâneos são mais ligados a games e relações virtuais, preterindo com assustadora frequência a prática de esporte físico ou o convívio pessoal”. Segundo o advogado, “esses elementos afastam as pessoas dos clubes, por isso os gestores devem entender as demandas de seus associados e, além das atividades esportivas, oferecer novos serviços de qualidade, incluindo espaços em que os associados possam se conectar ao mundo virtual”.

Uma atividade baseada nessa nova realidade é a dos eventos de games e e-sports. “O Brasil é o quarto país com o maior número de jogadores de games no mundo, ficando atrás apenas dos EUA, Japão e China”, afirma Michel Glazer, diretor da Eventbrite, a maior plataforma online para organização de eventos de games e e-sports, que prometem estar cada vez mais presentes no futuro das agremiações.

“Já há iniciativas de clubes que entram na Eventbrite para organizar competições de games em arenas cuja infraestrutura foi criada especialmente para essa finalidade”, afirma o diretor. Por enquanto, em relação aos clubes, ainda são competições de menor porte, mas Glazer conta que a Hebraica costuma realizar grandes eventos utilizando plataformas desse tipo como forma de atrair seus associados.

As inscrições são gratuitas, ou não, de acordo com o interesse do clube organizador, e o evento pode ser integrado a outras plataformas on-line, como Facebook ou Instagram, para mobilizar os associados. “O potencial é bastante grande”, diz o diretor. “Se você colocar um videogame lá, os associados vão querer participar ou assistir”, garante.

 

Profissionalização e financiamento

Paralelamente à tecnologia, o futuro aponta também para a consolidação do processo histórico de profissionalização dos clubes. A dra. Flávia Cunha Bastos, professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP), e ex-presidente e membro da Comissão Científica da Associação Brasileira de Gestão do Esporte (Abragesp), lembra que “os clubes brasileiros se organizaram ao longo do tempo para desenvolver sua vocação de formadores de atletas, e há uma tendência no mundo para que as agremiações ampliem sua responsabilidade nesse processo, para o qual a questão do financiamento da atividade é fundamental”.

Segundo a especialista, “um estudo comparativo internacional mostra que o desenvolvimento da formação esportiva em alguns países, como Austrália e Reino Unido, por exemplo, foi repensado para formar estruturas cujo financiamento possa funcionar independente dos governos”. Esses países criaram institutos ou agências, reunindo as organizações esportivas nacionais e estaduais e os comitês olímpicos e paraolímpicos, para buscar meios de desenvolver os esportes com recursos de patrocinadores, apoio da iniciativa privada e suporte de conhecimento da academia.

“No Brasil, a participação dos clubes seria inevitável pelo papel que eles exercem na formação esportiva. Isso exige que os clubes sejam os protagonistas desse processo de aglutinar as forças da iniciativa privada, do terceiro setor e do governo para trabalhar, no futuro próximo, em um plano de desenvolvimento do esporte liderado por eles”, afirma. Para a dra. Cunha Bastos, no entanto, as agremiações não vão conseguir êxito nesse processo sem uma gestão profissional. “Por mais que os clubes sejam amadores, isso não quer dizer que a gestão tenha que ser amadora”, diz.

Segundo a especialista, “os clubes já entenderam isso e deram o primeiro passo lá atrás, quando se juntaram para formar o Sindi Clube”. Para ela, no futuro, “os clubes continuarão a ser os protagonistas da viabilidade do desenvolvimento do esporte no país, e deverão liderar a formação dessa estrutura, seja na forma de um instituto, seja como uma fundação, juntamente com a iniciativa privada e também com o apoio das federações e confederações”, conclui.

Por Nivaldo Nocelli
Revista dos Clubes (SindiClubes SP)
Edição Agosto/2018.

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